A “brincadeira do boi”

       A “brincadeira do boi” é um evento no calendário festivo do pequeno Distrito de Caçarema, Município de Capitão Enéas situado na região Norte do Estado de Minas Gerais.

       Ela ocorre no sábado de aleluia, quando um grupo de pessoas se junta para o “fazer o boi”, um ente folclórico construído com varas, crânio de boi e recoberto por tecidos, lantejoulas e fitas coloridas.

       Depois de pronto, o “Boi” acompanhando por seu comandante, vaqueiros e caxixas, sai às ruas dançando, cantando e alegrando moradores e visitantes.

       Assim era a “brincadeira do boi” se tornou a Festa do Boi de Caçarema há mais de cinquenta anos, mesmo amaldiçoada por um padre que por aqui passou.

       O boi menino!

      Na semana que antecede a anunciada Festa do Boi de 2014, Aqui Onde Eu Moro foi visitar o filho do Pai do Boi, o menino João, agora João Uberaba, que deixou seus afazeres, para gentilmente nos contar a história da “brincadeira do boi” de quando Ele era ainda um menino.

       Na conversa, João Uberaba visita sua memória da infância e traz de lá o que ouviu de seu Pai e também o que viu das “brincadeiras do boi”.

                E assim começa a história…

       … era uma vez três Amigos, Zezin Toureiro, Glauberto e Bulandino. Eles trabalhavam na construção da ferrovia descortinando a terra das matas virgem e serrando a madeira usada na construção das casas dos engenheiros.

     Sem lazer para entreter, os três amigos criaram a “brincadeira do boi” lá no acampamento de Serrinha por volta do ano de 1943. A brincadeira caiu no gosto. E assim, o Boi que nasce e morre todo sábado de aleluia, passou a viver no imaginário das pessoas até, finalmente, fixar residência na Povoação de Messias Lopes, hoje Caçarema, depois de passar por Amargoso no Município de Janaúba.

Zezin Toureiro pai do menino João comandou a brincadeira do boi até 1959 quando faleceu. Já afamado, o boi não podia morrer. Foi então que os irmãos Cesário e Tião Pão de Cinco juntamente com outros amigos José dos Santos, Geraldo Cotia irmão de Amador, Tião Morcego e outros continuaram a dar o fôlego da vida ao Boi.

Tião Pão de Cinco foto Terezinha Souto 2013

Zezin Toureiro Foto Sampaio de Bom Jesus da Lapa – BA. Acervo pessoal de João Uberaba. Fotocópia de Terezinha Souto.

       João Uberaba se emociona ao descrever a “Brincadeira do Boi”, que hoje não é mais a brincadeira de antes.

       Depois de o boi bumbá, os três amigos serradores Zezin Toureiro, Glauberto e Bulandino, que abriam as picadas para a estrada de ferro passar, continuavam comandava a festa com os dançantes arrastando as precatas e levantando a poeira ao som da sanfona até quase o sol raiar.

       A “brincadeira do boi” era festa boa. O baile era na casa de Cesário. A rua era fechada. A Comissão organizadora ia de casa em casa recolher contribuição dos moradores que doavam carne, bebida, café, farofa, biscoito e dinheiro. Vinham pessoas de todas as Comunidades vizinhas. Não tinha nem jeito de contar a quantidade de cavalos e carroças que transportavam os visitantes. Todos comiam e bebiam à vontade conta João Uberaba, que diz sentir uma saudade grande daquela Festa do Boi de quando ainda era menino.

       E depois de o dia raiar era hora de malhar o Judas para a festa assim continuar. E antes de morrer, o Judas surrupiava a Comunidade e não deixava nada escapar: era carroça, cavalo, carrinho de mão, enxada, enxadão, roupa de varal e fazia o Judas enricá.

       Sabendo que ia morrer, Judas fazia seu testamento que era aberto e lido pelo Juiz Mundicão (Raimundo) para os foliões ainda emocionados depois de o boi bumbá.

       E assim dizia Judas na voz de Mundicão:

     “Que por motivo de doença resolvi me suicidar. Mas antes, vou ler aqui meu testamento. Deixo a minha carroça, que muito me serviu para carrear o milho da minha roça para … (e citava o nome do proprietário). Deixo meu cavalo alazão, que foi meu companheiro fiel em vida para … E assim seguia a leitura do testamento até que os bens furtados fossem devolvidos aos donos.

      João Uberaba conta ainda, que o Judas era um boneco caracterizado de Coronel vestido de palitó, gravata, chapéu de massa e revólver na cintura.  Com a empáfia de coronel, Judas era colocado numa cadeira sobre uma carroça na Praça da Igreja.

      Finalmente, depois de lido o testamento, José Patriota morador antigo de Messias Lopes, acendia o estopim ligado às bombas colocadas dentro do Judas, que explodia. E assim, cansados de festejar, a “brincadeira do boi” terminava até o outro ano chegar.

    Ao final da entrevista, João Uberaba mostrou o desenho do seu boi; o boi que mora lá na sua infância. O mesmo boi que lhe traz lembranças alegres e a tristeza de ter perdido o seu Pai no dia do Boi Bumbá.

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       Aqui Onde Eu Moro agradece João Uberaba que, além de remexer a sua memória e nos cantar sua história, cedeu gentilmente seu desenho do Boi e fotografia de Zezin Toureiro vestido de branco, tecido de algodão, feita lá em Bom Jesus da lapa.

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Aqui Onde Eu Moro

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