“Infância roubada”!

Joana mãe de Tereza

Encontrei Dona Joana no quintal de sua casa com a mesma serenidade e alegria de sempre. Ela falou da Joana criança, da Joana trabalhadora e da Joana Mulher centenária, sem deixar que as durezas da “vida” lhes roubassem o riso e a voz mansa de sempre.

Não há em Serras de Santana quem não conheça Joana Pereira dos Santos, Dona Joana mãe de 12 filhos naturais, mais três por adoção, mais de 50 netos, bisnetos, muitos tataranetos e muitos “filhos de umbigo”.

Me criei, casei e moro Aqui desde quando nasci.

Com o tataraneto no colo, ela diz: “nasci e me crie na Santana por uma Tia, que um dia me levou para o comercinho de Jacaré para confessar e casar. A gente não podia falar nada  minha fia. O Padre Augusto não queria fazer o casamento. Eu não tinha idade, que me desse para Ele terminar de criar.”

A Tia enganou o Padre.

Dona Joana conta que no dia do casamento Ela saiu da casa da Tia montada a cavalo num “cião”, uma espécie de cela só com o estribo.

                            “Minha Tia encheu minha roupa de pano para Eu casar. Se não tivesse                                   peito, o  padre não casava.

                            Fui com a roupa do casamento sentada de banda morrendo de medo de                               cair. Era um vestido branco com renda na gola. Tinha manga comprida.                               O vestido cobria o mocotó. Tinha um véu do mesmo tamanho do vestido.                            Nem peito eu tinha! Depois que casei veio a lua, dois ou três meses depois.                            E, um ano depois nasceu o primeiro filho.”

A “infância roubada”.

Dona Joana se lembra de que continuou brincando de boneca depois do casamento. Casou-se criança com um velho. Homem já experiente de três viuvez. Entre risos Ela conta  que quando se casou,  nem “sabia o que era lua referindo-se à menstruação. __ Quando vi aquela tanto de sangue fui contar minha mãe que Eu ia morrer. Ela disse: ___ Oh, minha filha é uma felicidade prô Você!

Uma história para o cinema.

Dona Joana dona de uma história de cinema vai comemorar os seus 104 anos na fogueira de São João de 2014. Seu desejo é ganhar um “ouro”, provavelmente um anel ou brincos de ouro.


Oh minha fia, depois que casei fiava o fio na roda e urdia o pano. Eu descaroçava o algodão, fazia as roupas da família. Não fui criada à-toa. Não tenho mal querência com ninguém.

Sou feliz. Deus me deu a sorte de ser feliz. Até hoje lavo roupa, lavo coberta, descanso um pouco na rede, molho as plantas.”  

Incrivelmente Dona Joana com seus 103 anos enfia a linha na agulha e sabe muito bem como transformar as fibras do algodão em fios e rolos de linha.

Calos da labuta.

Impossível não falar das marcas físicas de Dona Joana que foi feita mulher quando ainda era criança. Tem os pés calejados do labutar na vida:

Eu era nova e fazia coivara para o fogo não escapar. Plantava, limpava e colhia a roça. Tinha umas pessoas que pagava o trabalho, outras não. Depois que queimava as roça ficava os tocos. Hum, era cada trupicão! Arrancava as unhas do pé. A gente lavava com água de sal, enrolava o machucado num pano e ia trabalhar do mesmo jeito.”

         A mãe-menina.

“Eu ia trabalhar esperando menino. Quando sentia as dor jogava a enxada num canto e vinha embora lá do boqueirão até aqui (cerca de 5 quilômetros). Deus me ajudava. Eu parava e continuava andando quando a dor parava. Chegava em casa e mandava chamar Mãe Romana,  a parteira do lugar. Mãe Romana pegava remédio do mato, me dava um banho esperto. Isso aqui era tudo mato”.

Dona Joana se lembra muito bem do “banho esperto” preparado com mentrasto, mastruz e folha de algodão. As ervas eram fervidas numa panela de barro, que segundo o seu gesto era de cinco a 10 litros de chá.

Ela conta fazendo gestos, que  ficava sobre uma tábua, levantava a saía e tomava o bando com o chá da cintura para baixo usando uma cuia. “quando Eu pensava que não, bum! Uma hora levava. Tava na hora do nascimento.”

Dona Joana conta que deixada os filhos sobre um couro de gado numa varanda e ia trabalhar na roça. “Quando Eu chegava tava todo mundo de bundinha prá cima dormindo.” O filho mais velho ia ajudar na roça. Quando o galo cantava Eu já estava de pé”.

“Hoje a minha valença é Tereza, que nunca saiu de perto de mim. Me ajuda muito” diz Dona Joana da filha Tereza sempre perto da Mãe.

Na sua opinião, hoje é melhor que na sua infância porque “Eu sei o que é bom e o que é ruim.” Mas, o povo hoje tá numa prosa, numa eguagem. Tem gente que quer ser melhor que os velhos”, desabafa  Dona Joana sobre o preconceito que sente em razão de sua idade.

Ela não se cansa de levantar as mãos e os braços ao céu e agradecer a Deus por se sentir feliz, com saúde e disposição.

Enfim perguntei que mensagem diria para as mulheres neste Dia Internacional das Mulheres, então Dona Joana disse:

Deus e Nossa Senhora abençoe Nós Todas. Melhoria na sorte e na saúde e acabar com essa violência no mundo!”

 

“Infância Roubada” por Terezinha Souto em Aqui Onde Eu Moro

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6 respostas para “Infância roubada”!

  1. Legal , gostei muito .Toda vez que vou em Santana visito Dona Joana , trocava mudas de rosas com a minha mãe.Bela matéria.

  2. Caro Amigo,
    Obrigada.
    A Dona Joana é uma lição de vida.
    Abs. Terezinha Souto.

  3. de quantas Joanas, Anas, Marias já teriamos ouvido falar,se esse assunto não estivesse sempre em pauta,não é mesmo…Matéria linda;
    ..parabéns e um lindo dia da mulher pra vc…

  4. Ana,

    É verdade: nenhuma das agruras puderam calar a voz.
    Muitíssimo obrigada pela valiosa visita e pelo carinhoso comentário.
    Um abraço, Terezinha Souto.

  5. Parabéns, Terezinha, vejo que além de sensível e competente fotógrafa, voce está fazendo um importante trabalho ao tirar do anonimato pessoas que são verdadeiros exemplos de vida. Meus votos de merecido sucesso!

  6. Marilena,
    que honra e que alegria receber a sua visita e este comentário incentivador!
    Muitíssimo obrigada.
    Aqui Onde Eu Moro pretendia discutir a tênue linha entre o urbano e o rural na perspectiva do adensamento humano e suas implicações. Mas este sertão que imaginamos está realmente dentro da gente refletido em histórias com a de Dona Joana e tantos outros atores deste mundão de Deus chamado SERTÃO.
    Volte mais vezes. E, outra vez, muito obrigada pelo carinho da visitar. Um abraço, Terezinha Souto.

Aqui Onde Eu Moro

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