PROFANO!

Andei procurando um Rio. No caminho vi um sol dourado e quente, matas secas, flores, espinhos, terras nuas, monoculturas, trabalhadores. Vi rochas intemperizando intempestivamente.

Nessa procura uma brisa forte soprou do leste. Passa pelos meus cabelos me permitindo sentir um “gosto de liberdade”. Ela traz consigo um cheiro forte: uma mistura de peixe e de lama, que invade meus sentidos. Estou ali.

No horizonte, a água a se movimentar como uma onda, chega perto de Marcelina e Maria Aparecida. Elas moram ali, no brejo.

                 

Os nomes de Maria e de Marcelina estão cravados nas cruzes de madeiraboa, cobertas pelas águasdo Rio Gorutuba represadas há mais de 40 anos, agora visíveis.

Possivelmente, essas mulheres fazem parte de uma populaçãosem proteção. Populações tradicionais que habitavam o Vale do Gorutuba, que podem estar em extinção em nome do progresso. Progresso coordenado por Órgãos Públicos dirigidos por gente. Gente, que não conhece o verbo profanar.

Olho novamente ao redor,procurando o Rio. Vejo uma lâmina d´água. Vejo os vestígios da cerca do cemitérioonde Marcelinas e Marias habitam.

Vejo no horizonte, não tão distante, a Serra cor grafite, e, no horizonte logo ali, esqueletos; esqueletos de árvores que um dia serviram de restaurantes e moradia de pássaros.

Árvores que consumiam carbono e que ofereciam oxigênio em abundância, gratuitamente. Árvores Guardiãs das Águas.

As Serras do Território Geral, usadas como suporte do barramento hídricodo Rio Gorutuba estão em decomposição acelerada. As águas barradas eram a garantia de riquezas, trabalho, renda e balneários com moradias distintas.

As rochas e a vegetação decompostas produziram uma lama pastosa como uma cola, mantendo as cruzes no Brejo das Almas, que vai ressurgindo com o minguar da água, alimentandoespeculações, dor, perplexidade. Uma dor adormecidajá doida e sentida pelos descendentes dos ancestrais profanados.

                  

 Profano é ato humano que significa macular,desonrar, violar a memória dos mortos.

O artigo 210 do nosso Código Penal de 1940, aprovado pelo Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 diz que,  “violar ou profanar sepultura ou urna funerária”é crime, cuja pena é de reclusãode um a três anos, e multa.

Marcelinas, Marias, Aparecidas são pessoas enterradas em um cemitério na Serra Geral no Território de Janaúba/MG profanadas.

Não tenho notícias se as pessoas, que profanaram as sepulturas em nome do Progresso, responderam judicialmente pelo crime de profanar.

Mas, segundo a lenda, haverá um dia, que a águas do Gorutuba,que alagou o Bico da Pedra e que profanou Marias,se romperá.

A lenda parece se cumprirá pelo avesso. Hoje, o Rio Gorutuba,que era um marzão de água,pede socorro. Segundo o Jornal Minas Notícias edição de 24 de agosto, a represa do “Bico da Pedra” está “com apenas 28% da capacidade”.

ÁGUA, substância essencial à vida do nosso Planeta. Se a Terra morrer não haverá gerações futuras. “NÃO DEIXE O NOSSO FUTURO SECAR”.

Texto e fotografias de Terezinha Souto em Aqui Onde Eu Moro setembro de 2013.

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2 respostas para PROFANO!

  1. Parabéns pelo texto, muito bom !!!

  2. Obrigada. Visite-nos outras vezes.

Aqui Onde Eu Moro

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