Lilás.

Avistei este lindo Ipê quanto viajava na primeira semana de setembro de 2013. Para uma pessoa apaixonada por fotografia como Eu, nada mais natural que suspender a viagem por alguns instantes para contemplar tamanha beleza e guardá-la em pequenas telas digitais para serem vistas e revistas muitas vezes, ainda que virtualmente.

Ao compartilhar algumas fotografias desse lindo Ipê surgiu uma polêmica: afinal, suas flores são azuis ou seriam roxas? Essa indagação movimentou meu pensamento. Afinal, por quê as espécies de flores roxas que Eu conheço florescem no outono-inverno?

Das Quatro Estações, os viventes no  outono e no inverno perpassam meses de severa introspecção. A quantidade de água no meio ambiente dos biomas Cerrado e Semiárido entra em declínio crescente. Observo que é no auge desse estresse hídrico que as flores roxas desabrocham.

 

        Sendo assim, então posso acreditar que a intensidade da cor esteja relacionada com a dureza do processo de hibernação das plantas que, para se manterem vivas nessas estações de pouca água, despem-se deixando seus esqueletos à mostra, para em seguida cobrirem-se com um manto de flores para o puro deleite de abelhas, borboletas e outros animais que saciam a fome neste colorido e apaixonante restaurante natural.

 Mas o meu coração de criança não compreendia isso. Ele gelava como se paralisasse o fluir do sangue só por ver a cor roxa. Certo dia lá na minha infância, um garoto conhecido faleceu. Ele ficou todinho roxo e aquilo comoveu o meu pequenino coração de Criança.

 

Também na minha infância, as mulheres viúvas se cobriam de luto. Um luto de roxo profundo. Os caixões para enterrar aos mortos também eram recobertos por um tecido de cor roxa. E, na medida em que a dor da perda se esvanecia, as viúvas se desfaziam do roxo. Aos pouquinhos coloriam suas vestes de outros tons, menos sombrias, como o azul escuro ou o preto com bolinhas brancas. Foi assim com a minha Bisavô Ana, ao centro da foto com todos os seus 10 filhos, neste belíssimo retrato de Manoel Fotógrafo.

          Na minha aprendizagem de infância a cor roxa simbolizava a dor, o sofrimento, a perda. Agora, que já sou Avó e amo a fotografia, eu penso que as flores roxas das plantas são a mais genuína manifestação de que a vida segue depois que a planta-mãe atravessou mais um período inóspito de sua existência para enfim, florir e depois lançar suas sementes que poderão germinar dando continuidade àquela especial forma de Vida.

          Hoje vejo que o roxo pode ser lilás, assim como a minha alegria junto com meus familiares e amigos naquele natal de 2008, quando me vesti de roxo.

                   Aqui Onde Eu Moro por  Terezinha Souto –  fim do inverno de 2013.

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Aqui Onde Eu Moro

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