Alcides Ferreira de Brito: 100 anos ancestrais

     Há anos alguns membros dos Ferreiras cultivam o desejo de realizar um encontro festivo desta numerosa Família. Em 2013, tentou-se organizar este encontro, marcado para o dia 27 de julho na casa de Alcides Ferreira de Brito, na Santana, um lugar belo e singelo, que sofre com as mudanças introduzidas com as novas formas de relação com a terra.

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Certamente Alcides Ferreira de Brito teria ficado feliz com a realização desse Encontro, o qual ocorreria na semana das Festas tradicionais da Santana da então Burarama, quando também poder-se-ia comemorar seus 100 anos.

Alcides Ferreira de Brito nasceu aos 30 de julho de 1913. Um homem de atitudes serenas, impossível de ser relegado ao esquecimento. Jamais alterou a voz para falar com quem quer que fosse.

      Elegi-o como elo com meus ancestrais. É por meio dele que me conecto com memórias e busco registros de interações estabelecidas por laços entrelaçados como teias, tecidas numa vastidão de existências e infinitos, que só se percebe quando se reconhece intimamente uma identidade. Um processo.

     “Ele era muito rígido. Não aceitava coisa errada. Um dia, depois de uma discussão entre parentes, Ele nos chamou e disse:__ Se Vocês têm amor por mim nunca andem com fuxicada, pois a coisa mais feia do mundo é fuxico”, recorda Eva, a segunda filha de Alcides.

     Alcides era guardador das águas das chuvas.Carregando foto “Quando descia água no córrego, Pai pegava a enxadinha e limpava o rêgo para jogar água na lagoa. Ele era inteligente. Só Ele fazia isso lá. Depois disso, um parente fechou a passagem da água até que a lagoa secou”, lembra Ana sua filha mais velha, que o considera um bom Pai: “A gente achava que ele era uma autoridade. Era o exemplo dele que a gente seguia. A gente o respeitava”.

      “Quando Ele tinha dinheiro, a porta do quarto não fechava mais, porque toda hora Ele pegava algum para emprestar. Uns pagavam o empréstimo, outros não. Ele raiava com a gente. Não me lembro de ter apanhado. Ele colocava a gente para trabalhar desde criança. Ele nos ensinou ser trabalhador e honesto. Onde morávamos colhíamos muitos mantimentos. Tudo que plantávamos dava. O excesso da produção perdia, porque não tinha onde vender ou comprar. Ele foi um bom pai, só não dava conforto, porque não tinha jeito. Era uma dificuldade para locomover. A gente não pôde estudar para desenvolver. Tinha um professor particular para ensinar a gente, depois teve uma escola do Município de Francisco Sá, que não desenvolvia muito também. Meu Pai era um homem respeitado” conta Tia Violeta enquanto fazia pipocas para servir aos convidados do aniversário de seu neto Pedro.

     Eva também se recorda de quando “a cerca do curral enchia de crianças com cabaças para apanhar leite. Ele dava leite para as crianças. Era uma pessoa generosa. Sempre socorria as pessoas. Lembro-me que minha Mãe dizia: ___ Esse homem quando arruma dinheiro, não deixa a porta do quarto fechada. Ela falava que, prá Zé dos Santos Ele podia emprestar dinheiro, pois chegava o dia de pagar, nem que fosse de noite ela ia pagar o empréstimo.”

     Belizário Carlos genro de Alcides se emociona ao falar do sogro: “Considero-o como um segundo Pai. Era um sujeito direito. O povo abusava da bondade dele. Ela escrevia cartas como se fosse um poeta. Eu escrevi um bilhete a Ele pedindo sua filha Violeta em casamento e Ele me respondeu enviando uma carta, a mais linda que Eu recebi e que até hoje fico triste só de pensar que ela foi queimada”.

     Alcides Ferreira de Brito é o meu Avô materno. O seu falecimento encheu o meu âmago de uma tristeza profunda. Não pude me despedir dele. Incrivelmente, naquele dia 11 de fevereiro de 2001 quando Ele se foi, Eu frequentava o arquivo público de Uberlândia, quando fazia leituras e transcrições de jornais de 1903 a 1917. As datas e os acontecimentos registrados naqueles jornais sugestionavam minhas memórias.

     Uma brisa fresca e suave adentrava a janela da sala do Arquivo Público, tocando-me e me transportando para a casa de meu Avô Alcides, permitindo-me sentir a presença daquele Homem que, sentava à beira da janela olhava serenamente o horizonte, à contraluz do dia, como se fosse o Pai do Tempo.

     Lembranças do cheiro das tardes de sua casa, do caldeirãozinho de ferro sob o fogo do fogão a lenha, no qual sua mulher, minha Vó Sebastiana, cozinhava o feijão mais gostoso que já comi em toda a minha vida, de quem também guardo muitas lembranças, dentre elas, o som de sua Voz, que chamava a todos para mais um jantar cuidadosamente preparado.

     Alcides Ferreira ficou inconsolado com o falecimento de minha Avó Sebastiana. Enquanto caminhávamos juntos durante a cerimônia do enterro, Ele ia me contando como a conheceu. Contou-me também sobre sua bisavó que teria sido caçada e aprisionada no laço, era índia.

Alcides Ferreira de Brito era bisneto de Juvenata Ferreira de Brito nascida há 173 anos, a mulher mais importante que viveu Aqui Onde Eu Moro.

     Alcides, meu ancestral astral!

 

     Terezinha F Ferreira Souto em Aqui Onde Eu Moro no inverno mais quente que já vivi: 2013.

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