OUTRO OLHAR SOBRE O RIO TOCANTINS

                                                                                                                                             por Terezinha Souto

 

          Ir do Maranhão ao Estado do Tocantins é coisa de cinco minutos.

"VIDA E MORTE TOCANTINS" 

          É um vai-e-vem de pessoas, que sonham realizar os sonhos já sonhados. Amores.

         A viagem custa só um real, mas Dona Maria que vai e volta de um Estado para o Outro muitas vezes diz não gostar, mas gosta da viagem sobre o Rio.

          O barco é como um desses ônibus que circula pelo interior de nosso País, sem garantias.          

          Os acidentes com barcos sempre me impressionam pela dor tardia  vinda de um sentimento inconsciente da própria omissão, e também da imprudência daqueles que transportam pessoas sem o necessário comprometimento.

          Os coletes salva-vidas ficam no compartimento superior do barco. Parece-me que que nenhum dos passageiros pensa que poderá recorrer a eles. A viagem é curtinha.

          Parece-me barcos com manutenção duvidosa. E não se sabe quando é que a hidroelétrica vai abrir as comportas e elevar o nível do Rio rapidamente. O direito à essa informação não é assegurado e as  pessoas que trabalham às margens do Tocantins têm que sair em retirada  para não perder suas mercadorias, assim como fazem os trabalhadores de rua na Cidade de  São Paulo, quando a Polícia chega para coibir o trabalho ambulante. 

          Como poderia ver as margens do Tocantins sem ficar de costas para o Sol? O jeito foi arriscar. Peguei um barco para a cidadezinha da outra margem por voltas das 16:40 hs. Aos poucos Imperatriz ia ficando do outro lado do Rio.

 Sem rodas, o barco deslizava sobre as águas.

…. cruzava por aqueles que já tinham ido.

 Eu queria ver Imperatriz com os olhos de longe.

          Logo que se chega à outra margem vê-se uma tubulação sugando areia do fundo do Rio.

Um barco faz a mesma no meio do Rio.

          Olhando o Tocantins  do lado de cá,  Ele me pareceu ainda menino, que se podia atravessar nadando.

          Aos poucos era possível ver que a areia vinha de suas margens, antes protegidas por matas. Agora são um barranco só, reservas gratuitas de areia com a qual se ganha dinheiro,  constrói casas, edifícios, pontes, calçadas na Cidade, a maioria impróprias para crianças e idosos por inacessibilidade.          

  

          Olho as pessoas que vivem deste Rio e Elas me parecem alheias ao que lhe ocorre. Suas margens vão se afastando de seu leito na medida em que as árvores são suprimidas pelo corte, por queimadas, por tombamento acidental e a areia vai se despreendendo acelerando o intemperismo das rochas.

         ...lá vai uma Mulher de sacolinha na mão e a vara de pescar sobre os ombros.       ____Venho pescar para me distrair, disse Dona Luzia protegendo-se do sol com seu charmoso chapeuzinho de crochê. 

          Raimundo, que pesca ao lado de Dona Luzia, diz que seu pescado é para o almoço do dia de amanhã.

           Raimundo, que talvez não conheça o Programa do Governo Federal “BRASIL SORRIDENTE” e nem sabe que a Coca-cola anunciada no seu boné inventou papai Noel e comprou o tradicional Guaraná Maranhense de nome JESUS,  mostra feliz o peixinho que vai servir de mistura do almoço de amanhã.

          Dona Luzia, que teve “sorte” igual a de Raimundo, exibe feliz o pequeno peixe, cujo periódo de defeso começa em novembro terminando lá prá fevereiro do ano que vem (2012).

http://www.mp.ma.gov.br/site/DetalhesNoticiaGeral.detalhesNotCaouma.mtw?noticia_id=3044  

       Dona Luzia parece alcançar a outra margem do Rio Tocantins ao lançar sua vara tentando sorte melhor.

        As cenas que compõem a paisagem do Tocantins poderiam ter viés poético. Mas é incrível como tem fezes em cada cantinho de suas margens, contrariando ao que afirmamos ser e viver na “era moderna”.       

          É como modernos  e sintonizados universalmente por meio de antenas, satélites, chips e outras coisas mais, que defecamos no Rio que faz parte de nossas Vidas, nossas Histórias, de nossas Memórias.

          Afinal, que modernidade é essa cujo saber científico, político e jurídico permite que escoamos nossos efluentes para dentre da substância essencial à vida?    

          Que modernidade é essa cuja consciência educacional só alcança a alguns, mesmo sendo a Educação direito de todos?   

          Nem parecia um dia de sol. Imperatriz vista do Estado do Tocantins estava cada vez mais cinza. Enfumaçada.  

          Um Maranhão devastado por  queimadas, aniquilado nas suas riquezas.  

     Um Rio  de múltiplos  usos, descuidado.                                   

           Indiferentes aos acontecimentos, crianças se refrescam nas águas do Tocantins.

          Mais adiante uma mulher lava uma buchada, um barco desliza sobre as águas e no horizonte as chaminés expelem resíduos na atmosfera.

          Um belo rio, tão maltratado como foi Maria da Pena, que emprestou seu nome para a LEI Nº 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006 , que criou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, punir e Erradicar a Violência contra a Mulher  e medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.  

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm

        Assim como vejo o Tocantins vejo um Povo maltratado, sem a segurança sócio-ambiental a que têm direito. Um Povo que sonha, que ri, que chora, que parece jamais imaginar, que a idéia de Rio como concebemos poderá ser extinta, e não se saberá mais como foi um RIO.

         Voltei para o Maranhão por volta das 17:30 horário local. O primeiro plano da fotografia não mostra o cinza,  a fumaça e nem aquele horizonte sombrio, que parece já ter incorporado ao meio ambiente, ao qual as pessoas se adaptaram. Quase automátos.

 Antes de se pôr, o Sol vai  dourando as Águas …

…. e continua o vai e vem…

… a espera pela próxima viagem.

         Olho o Tocantins no final do dia do alto do barranco, onde é comercializada uma cerveja por cinco reais.

          As tampinhas retiradas das garrafas são aleatoriamente dispersadas no meio ambiente, assim como outras embalagens que vão constituindo um cenário, que se  retratado por Poeta de fértil imaginação, poderia ser emoldurado com belas e comoventes histórias de amor.

          É continua o vai e vem aquático.

         À medida em que a noite toma conta do dia não se ouve o ronco dos motores, o que parece confirmar o que o Seu João disse um dia, quando aguardavamos a “luz chegar” para uma reunião na qual se discutiria moradia no bairro Dom Almir na cidade de Uberlândia:

                       “as águas dormem quando anoitece”

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2 respostas para OUTRO OLHAR SOBRE O RIO TOCANTINS

  1. Nede disse:

    Muito boa a matéria. Precisamos replanejar o mundo para uma vida inteira, não apenas para um futuro de décadas ou centenários. Para isto é preciso treinar e educar o homem a fim de que possa usufruir dos recursos hídricos, bem como dos demais recursos naturais e ao mesmo tempo defendê-los da agressaõ e da degradação. Não se pode pensar as duas coisas separadamente.

  2. Nede,
    muitissimo obrigada pela presença e comentário. Dissemine essa idéia. Volte mais vezes. Abs.

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